Aqui, lê-se, drama e doçura.

Escrevo meus porquês, sem poréns e sem vírgulas.
Meu mundo é perigoso e opcional.
Sou liberta de correntes.
Vivo.

Deixo ser
Deixo estar
Deixo a vida passar
- Observo enquanto escrevo.
Transformo vivência em palavras
e -
Deixo as palavras invadirem o espaço.

Vendo a vida passar; e escrevendo entre aspas.
(Aqui, lê-se, drama e doçura.)

terça-feira, 13 de julho de 2010

Sleep, my darling

“Querida Annie, dona de mim e de minh’alma. Peço-te que não borde meu frágil coração feito de algodão. As agulhas machucam, por isso, cuide dele e não o perca. Mesmo sendo pequeno demais, proteja-o, pois por ti, passei noites sem dormir. Beijos, Ed.”

Foco narrativo: Terceira pessoa

- Ed, por qual motivo carrega consigo uma caixa?
- Para que eu possa guardar as cartas que minha doce Annie manda.
- Que tipo de cartas são?
- Cartas de amor. Nos amamos – Com um sorriso, levantou-se e pulou o muro que o separava todas as manhãs do mundo. Pegou sua bicicleta e pedalou sem rumo, como fazia sempre. Parou em um lugar calmo e debaixo de uma árvore, escrevia felizmente:
“Querida Annie, dona de mim e de minh’alma. Beijo-te novamente sem tocar teus lábios e sinto seu amor. Quero somente que cuide de mim, pois por ti, passei noites sem dormir. Beijos Ed.”

Terminando de escrever, seu celular toca:
- Meu querido, que falta de paz que lhe faz escrever?
- A falta que você me faz, doce Annie. Pensava em ti.
- Não ocupe seu tempo comigo.
- É a melhor maneira de ocupar meu tempo.
Pausa.
- Matando aula?
- Como percebeu?
- Vire-se.
Ed se virou e percebeu que Annie estava logo atrás. Ela se aproximou e tocou-lhe o rosto, acariciando.
- Meu querido Ed., preciso de você.
- Sempre que precisar, minha Annie.
Aquela tarde foi como todas as outras em que Annie e Ed. Se encontravam. Com beijos, abraços e carícias.

Foco narrativo: Terceira pessoa

- Ed querido... Posso lhe fazer uma pergunta? – Perguntou Annie
- Sim, minha Annie, tudo o que quiser.
- O que faria se eu fosse embora?
- Não diga isso! Acho que... Não faria, eu não sei. Eu necessito de ti, Annie.
- Um dia teremos que chegar ao fim.
- Não, Annie. As coisas não precisam necessariamente de um fim.
Nessa hora, Annie abaixou sua cabeça e lhe deu um beijo no rosto.

Foco narrativo: Primeira pessoa

Levantei-me pela manhã devido à claridade que passava por minha janela, abri a cortina e meus olhos não conseguiram se abrir por estar tão claro. Depois de um tempo, pude enxergar o céu azul, limpo, que logo me alegrou. Peguei minha bicicleta imediatamente e fui para o único lugar que me tira do mundo. Sem vontade e hesitar, peguei-me escrevendo o que escrevia todas as manhãs, para minha doce Annie.

“Querida Annie, dona de mim e de minh’alma. Quero cravar-me em tua pele. Agora. Nunca mais sair. Quero viver escondido, adentrando a ti, tornando-se parte, fisicamente. Annie, quero teu coração, dê-me, pois por ti, passei noites sem dormir. Beijos Ed.”
Naquele momento, sem esperar, liguei para Annie e não obtive resposta na primeira vez.
Annie amava seu celular e não se separava dele. Nem deixava de me atender. Nunca me disseram que sentimento de perda se parecia tanto com medo. Naquele momento, não passava pela minha cabeça o que viria a seguir. Digo isso agora, porque sei que foi o primeiro passo para o sofrimento. Talvez não o dela, mas o meu, com certeza.
Recebi uma carta, era uma carta dela, com palavras bonitas como a dela. Fiquei feliz, como de costume, tudo parecia normal. Mas só parecia.
Liguei novamente, e dessa vez, Annie me atendeu.
- Ed. – Disse trêmula.
- Meu anjo, o que angustia? – Preocupei-me
- Nada, meu poeta. Só que hoje eu só quero... Estar em paz. Até a próxima Ed. – Desligou Annie.
Senti como se Annie tivesse atendido somente para eu não ligar mais, para não me matar de saudades. Ah, doce Annie...

No dia seguinte, a mesma coisa... Mas dessa vez não pude a ouvir.
Aquele dia foi de angústia, sem ouvir minha Annie, mas não de uma dor arrebatadora. A angústia é mais leve. Talvez sua carta que me fizera meditar tivesse me deixado mais angustiado, já que suas palavras finais caíram como um decreto de nossa breve história: “abraços carinhosos, Annie”. Abraços? Annie? Seus últimos escritos sempre foram “sinta meus doces beijos, com muito amor, sua Annie”.
Talvez tivesse sido uma reflexão tola, naquela hora foi o que pensei. Mas se eu pudesse voltar atrás, a teria buscado naquele momento. Meu mal, foi esperar demais, esperar suas palavras, não acreditar no fim, tudo depois foi como um tapa, mesmo sabendo o que viria. Annie, de fato, me deixou muitas noites sem dormir.

Os dias foram se passando, e não tive mais cartas de Annie. Nem suas ligações, nem minhas ligações. Sua voz que sempre me extasiou, deixou-me a loucura. Annie havia me abandonado.

Foco narrativo: Terceira pessoa

O dia estava escuro, apesar de já ser quase 10h da manhã. O caso, é que as nuvens cobriam o sol, elas estavam negras e o mundo parecia desabar em chuva. Ed poderia falar que os anjos estavam chorando, sabendo de sua tristeza que estaria por vir.

Ed passara a dormir cedo e acordar tarde, pois já não havia mais motivos para viver, e talvez não fosse suficientemente corajoso para um suicídio. Naquele dia, seu celular o acordou, com o toque que deixara para sua querida Annie. Em um segundo, correu para atender.

Foco narrativo: Primeira pessoa

- Annie? Annie por favor, fale comigo, preciso de ti. – Estava aos prantos, quase gritando ao telefone. - Desculpe Annie, eu queria muito te ouvir.
- Ed., quero te ver – Disse ela, falhando.
- Sempre minha Annie – Disse em êxtase.
- Na floresta, até daqui a pouco – Rápida.
- Sim Annie querida, na nossa floresta – Corrigi.

Peguei minha bicicleta e em questão de segundos estava na floresta. Encontrei Annie, ao que me parecia, ela já estava me esperando quando ligou.

- Nessa floresta... – Começou. Virei-me rapidamente para olhar seus olhos. Eram como pedras preciosas que brilhavam ao ver o claro após a escuridão - os galhos presenciaram nosso amor e as folhas são testemunhas. As gotas da chuva forte que caía ao fazer sol, eram tão linda e pura, limpa e significante, símbolo nosso, meu e seu, Ed. As flores davam um toque especial, com fragrâncias eternas que invadiram nossas memórias. Ed., Acho justo que seja aqui, neste mesmo lugar onde nos declaramos tantas vezes que terminamos nosso romance.

Congelei por instantes. A dor naquele momento abriu um buraco enorme em meu peito, e senti que aquele buraco demoraria a fechar .

- Querida Annie, que mal lhe fiz? – Indaguei perplexo.
- Ed., não fizeste mal algum em mim. Só acho que tudo tem um fim, e este é o nosso fim.
- Quando é para ter fim... Nós temos que ter um fim também Annie? Eu te amo muito Annie.

Annie me olhava como uma criança saciada, sem fome, agradecendo seus lindos momentos comigo, com os olhos. Era um olhar singelo e doce, mas que naquele momento, era melhor não existir.

"Como somos crianças! Que valor damos a um olhar! Ah! Como somos crianças..."

Foco narrativo: Terceira pessoa

Ed. Naquele dia, chorou querendo falar; não conseguiu.
Annie pegou uma caneta e um papel de sua bolsa e demorou um tempo para escrever. Ao terminar, o entregou.
- Leia, meu pequeno poeta – Disse levemente.
Enquanto lia, Annie se virou e foi embora. Ed ainda chorando, ao terminar de ler, tentou ainda enxergá-la mas ela já havia passado por onde seus olhos poderiam ver. Achou melhor não tentar alcançá-la, e sem reação, deixou que o papel deslizasse sobre seus dedos, caindo, então, no chão.
Era uma mensagem sem ação, pequena, mas que demorou a ser entendida.
Depois disso, nunca mais se ouviu falar de Annie.

“Você pode ir dormir agora.
Durma meu querido, deixarei minha voz mais calma, e passarei minha mão pela sua cabeça, acariciarei seu rosto, amansarei meu timbre, ficará tão doce quanto o mel. Sonhe com os anjos mais calmos e bonitos do céu, veja as nuvens mais brancas que a neve, e conforte-se em sua maciez, apenas durma. Durma meu querido, você pode dormir agora.”


- É como viver sem alma... – Falhou pelas lágrimas – Minha... Annie.

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